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Desvio Padrão

Data

2019 (em processo)

Durante anos trabalhei em consultórios odontológicos lidando diariamente com medidas, encaixes, alinhamentos e projeções. Aos poucos, a tentativa constante de corrigir e enquadrar os corpos dentro de padrões ideais começou a me causar incômodo. Em uma sociedade marcada pela padronização estética — sobretudo dos rostos femininos —, percebia cada vez mais o apagamento das singularidades em nome de uma ideia de harmonia.

Foi nesse contexto que as imagens radiográficas passaram a ocupar um lugar de fascínio para mim. Havia algo silencioso naquelas transparências atravessadas pela luz, como se revelassem não apenas estruturas ósseas, mas também camadas invisíveis dos corpos e das experiências humanas. Muitas vezes eu conhecia melhor os pacientes por dentro do que por fora.

“Desvio Padrão” nasce desse deslocamento: da passagem da odontologia para a arte, da imagem clínica para a imagem poética. Utilizando radiografias, traçados ortodônticos, fotografias odontológicas e instrumentos clínicos, o trabalho ressignifica materiais originalmente produzidos para diagnosticar, corrigir e normatizar corpos.

Os equipamentos, antes meras ferramentas clínicas, transformam-se em instrumentos de expressão. Suas formas e texturas desgastadas carregam marcas de experiências passadas e de um período da minha vida dedicado à observação silenciosa dos corpos. Ao atravessarem o campo da arte, deixam de operar apenas como instrumentos de correção e passam a revelar memórias, tensões e fragilidades. Cada peça torna-se vestígio de uma tentativa constante de enquadrar rostos dentro de padrões ideais — enquanto as imagens procuram justamente devolver espaço ao desvio, ao acaso e à singularidade.

O raio-x ocupa um lugar central no trabalho. Sua capacidade de atravessar superfícies e revelar estruturas invisíveis transforma-se aqui em metáfora. As imagens negativadas e transparentes procuram lançar luz sobre aquilo que escapa à norma, compreendendo o desvio não como algo a ser corrigido, mas como manifestação da singularidade humana.

Nas colagens e experimentações fotográficas, o erro, a sobreposição, o rasgo e a transparência deixam de ser falhas e passam a operar como linguagem. A própria fotografia experimental torna-se um desvio: um espaço onde o acaso, a imperfeição e a fabulação podem existir como resistência à homogeneização dos corpos. Entre ciência e imaginação, documento e ficção, “Desvio Padrão” constrói imagens que questionam os limites entre normalidade e diferença, controle e liberdade, correção e existência.

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